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Thursday, March 18, 2010

Um poema para o Dia do Pai


Ter um Pai ! É ter na vida
Uma luz por entre escolhos ;
É ter dois olhos no mundo
Que vêem pelos nossos olhos !

Ter um Pai ! Um coração
Que apenas amor encerra,
É ver Deus, no mundo vil,
É ter os céus cá na terra !

Ter um Pai ! Nunca se perde
Aquela santa afeição,
Sempre a mesma, quer o filho
Seja um santo ou um ladrão ;

Talvez maior, sendo infame
O filho que é desprezado
Pelo mundo ; pois um Pai
Perdoa ao mais desgraçado !

Ter um Pai ! Um santo orgulho
Pró coração que lhe quer
Um orgulho que não cabe
Num coração de mulher !

Embora ele seja imenso
Vogando pelo ideal,
O coração que me deste
Ó Pai bondoso é leal !

Ter um Pai ! Doce poema
Dum sonho bendito e santo
Nestas letras pequeninas,
Astros dum céu todo encanto !

Ter um Pai ! Os órfãozinhos
Não conhecem este amor !
Por mo fazer conhecer,
Bendito seja o Senhor !

FLORBELA ESPANCA

Tuesday, December 8, 2009

Jasmim

Quando passas a meu lado,
Que olhas para mim,
Tornaste a cor da rosa,
E eu da cor do jasmim

Vê tu que expressões diferentes
da nossa mesma ansiedade:
A cor da rosa é despeito,
A palidez é saudade!

Florbela Espanca

Thursday, July 30, 2009

"Felicidade"


"Felicidade
Hoje, no céu
perdura algo mais
do que uma sombra,
do que um ego,
são as nossas lágrimas juntas
a chorar de amor.
Choram contentes por amar
alguém assim tão maravilhoso.
O meu coração não quer
mais ninguém senão tu.
Tu, que me fazes sorrir
Tu, que fazes meus olhos brilharem
de alegria.
Terás sempre um lugar sagrado
junto às estrelas
que cintilam por nos verem
agora tão felizes."

Florbela Espanca

Sunday, July 19, 2009

FOLHAS DE ROSA


Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo …

E falo-lhes d’amores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente…
Pouco a pouco o perfume do outrora
Flutua em volta delas, docemente …

Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m’embriaga

O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que reflectia outrora tantos risos,
E agora reflecte apenas pranto,

E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado…

Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia…

Florbela Espanca

Sunday, February 15, 2009

Amar!



Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Florbela Espanca

Thursday, January 22, 2009

Rosas



Rosa! És a flor mais bela e mais gentil
Entre as flores que a natureza encerra;
Bendito sejas tu, ó mês de Abril
Que de rosas inundas toda a terra!

Brancas, vermelhas ou da cor sombria
Do desespero e do pesar mais fundo,
Sois símbolo d'amor e d'alegria
Vós sois a obra-prima deste mundo!

Ao ver-vos, tão bonitas, tão mimosas
Esqueço a minha dor, minha saudade
P'ra só vos contemplar, ó orgulhosas.

Eu abençoo então a Natureza,
E curvo-me ante vós com humildade
Ó rainhas da graça e da beleza!

(Florbela Espanca)