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Tuesday, August 11, 2009

Texto que Raul Solnado escreveu e que foi colocado sábado junto à sua urna


“Um vazio no tempo

Numa das últimas vezes que estive na Expo de Lisboa, descobri estranhamente uma pequena sala completamente despojada, apenas com meia dúzia de bancos corridos. Nada mais tinha. Não existia qualquer sinal religioso e por essa razão pensei que aquele espaço se tratava dum templo grandioso.
Quase como um espanto senti uma sensação que nunca sentira antes e de repente uma enorme vontade de rezar não sei a quê ou a quem. Fechei os olhos, apertei as mãos, entrelacei os dedos e comecei a sentir uma emoção rara, um silêncio absoluto e tudo o que pensava só podia ser trazido por um Deus que ali deveria viver e que me ia envolvendo no meu corpo adormecido. O meu pensamento aquietou-se naquele pasmo deslumbrante, naquela serenidade, naquela paz.

Quando os meus olhos se abriram, aquele meu Deus tinha desaparecido em qualquer canto que só ele conhece, um canto que nunca ninguém conheceu e quando saí daquela porta corri para a beira do Tejo para dar um berro de gratidão com a minha alma e sorri para o Universo.

Aquela vírgula no tempo, foi o mais belo minuto de silêncio que iluminou a minha vida, que me fez reencontrar e que me deu a esperança de que num tempo que seja breve, me volte a acontecer.

Que esse Deus assim queira!
Raul Solnado”


“Façam o favor de ser felizes!”

Saturday, August 8, 2009

Raul Solnado

Desapareceu o Senhor Gargalhada

Actor e humorista português faleceu este sábado (8 de agosto) aos 79 anos de idade.
O actor estava internado no hospital Santa Maria e, esta manhã, pelas 10h50m, foi confirmado o óbito.
Segundo informou o hospital, Solnado sucumbiu na sequência da evolução de um quadro clínico cardio-vascular grave, depois de ter sido operado à carótida, há três dias.

«Para mim tudo é risível mas imponho-me limites. Despejo a minha fúria sobre o pensamento monolítico, critico o que os políticos dizem e fazem, ridicularizo os tiques da sociedade, contexto as injustiças. Só poupo a democracia, é proibido atentar contra o regime democrático. Contra o Presidente da República, também não. Mal vão as coisas quando ele é criticável» - referia Raul Solnado na entrevista à SPA há cerca de cinco anos .

Raul Solnado nasceu em Lisboa a 19 de Outubro de 1929 e toda a vida procurou um único objectivo. Há cerca de uma década, numa entrevista à revista «Focus», foi isto que ele respondeu quando lhe perguntaram: «Felicidade». Com um espírito humanista, dedicou os últimos anos da sua vida à Casa do Artista - um projecto social que fundou ao lado do também já falecido Armando Cortez - que ajuda os actores e profissionais do mundo do espectáculo na reforma.

Solnado começou a trabalhar aos 18 anos no teatro amador, na Guilherme Cossul. Em 1952 teve a sua estreia profissional no Máxime, e nunca mais parou. Fez televisão (o motor para a popularidade), teatro, cinema e pôs assim milhões de portugueses a rir. O seu nome passou a ser sinónimo de humor em Portugal, sendo uma referência para os novos comediantes que surgiram depois dele.
«A Guerra de 1908», em 1961, foi a alavanca para a popularidade, com os seus monólogos que vinham ao encontro dos tempos de guerra que Portugal viria a conhecer e da ditadura que se vivia.
Em 1969, com Carlos Cruz e Fialho Gouveia surge o programa da RTP Zip-Zip - ainda hoje um dos programas mais lembrados da emissora nacional.
Na televisão, o concurso «A Visita da Cornélia» é ainda uma referência obrigatória apesar de ter sido feito nos idos anos 60. Na televisão teve participações em todos os canais e esteve, por exemplo, ao lado de Eunice Muñoz, na telenovela «A Banqueira do Povo».
A carreira de Raul Solnado foi riquíssima. No cinema, entrou em «A Balada da Praia dos Cães», de Fonseca e Costa, baseado no livro de José Cardoso Pires, nos idos anos 80. Mas as solicitações para a sétima arte aconteceram até aos dias de hoje. Solnado participou, por exemplo, em «Call Girl», de António-Pedro Vasconcelos, em 2007.
No teatro, foram incontáveis as suas participações. Entre 1964 4 70 criou e esteve à frente do Teatro Villaret. Dele se conhecem inúmeras revistas no Parque Mayer também.
Em 2001, uma das suas últimas aparições foi a interpretar um dos principais papéis na peça de Freitas do Amaral «O Magnífico Reitor».

Na internet, a sua morte está a ser hoje lembrada em redes sociais como o Twitter ou o Facebook, onde são imensas as referências ao seu humor.
Na televisão, no cinema e no teatro, agora é a actriz Joana Solnado quem perpetuará o seu apelido nas artes.